Segurança ou vigilância: o que considerar antes de rastrear um idoso com demência por GPS? 

Diego Velázquez
6 Min de leitura
Yuri Silva Portela

Conforme analisa Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, o comportamento de deambulação errante, em que o idoso com demência sai de casa sem orientação e se perde, é uma das situações mais temidas pelas famílias que cuidam desses pacientes e uma das principais causas de institucionalização precoce. Em vista disso, a tecnologia de rastreamento por GPS surge como uma resposta aparentemente direta a esse problema, permitindo que familiares e cuidadores localizem o idoso em tempo real por meio de dispositivos vestíveis ou inseridos em objetos cotidianos. 

No entanto, sua adoção levanta questões éticas sobre privacidade, autonomia e consentimento que a medicina geriátrica precisa enfrentar com a mesma seriedade com que avalia sua eficácia clínica. Neste artigo, apresentamos os dois lados dessa questão e o que orienta uma decisão responsável.

O problema real que a tecnologia busca resolver

A deambulação errante afeta entre 40% e 60% dos pacientes com demência em algum momento da doença e representa um risco concreto de lesão, exposição a condições climáticas adversas, acidentes de trânsito e morte. De fato, episódios de fuga do domicílio produzem nas famílias um estado de alerta permanente que compromete o sono, aumenta a ansiedade e acelera a decisão de institucionalizar o idoso, frequentemente antes do que seria clinicamente necessário se mecanismos de segurança adequados estivessem disponíveis.

Como detalha Yuri Silva Portela, o rastreamento por GPS tem demonstrado em estudos observacionais capacidade real de reduzir o tempo de busca quando ocorre um episódio de fuga, de diminuir a ansiedade dos cuidadores e de prolongar a permanência do idoso no domicílio ao oferecer uma rede de segurança que permite maior liberdade de movimento dentro e nas proximidades da casa. Esses benefícios, medidos em desfechos concretos, justificam a avaliação séria dessa tecnologia como parte do plano de cuidado ao idoso com demência.

Os dilemas éticos que a tecnologia não resolve sozinha

Rastrear um ser humano sem seu consentimento pleno é uma intervenção que carrega peso ético, independentemente das boas intenções que a motivam. O idoso com demência leve pode ter capacidade residual de compreender que está sendo monitorado e de ter preferências sobre isso, capacidade que frequentemente não é avaliada antes que a tecnologia seja implementada. A ausência de uma conversa sobre o rastreamento, mesmo quando a compreensão do paciente é limitada, tende a ser justificada pela urgência da segurança sem que a dimensão da privacidade seja adequadamente considerada.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, o princípio ético que deve orientar essa decisão é o da proporcionalidade: o grau de monitoramento implementado deve ser proporcional ao risco real de deambulação perigosa e à capacidade cognitiva residual do paciente. Até porque um idoso com demência leve que ainda tem julgamento parcialmente preservado merece uma abordagem diferente da aplicada a um paciente com demência avançada e episódios frequentes de fuga, e essa diferenciação raramente é feita com o cuidado que merece.

Implementação responsável e envolvimento da família

A decisão de implementar rastreamento por GPS para um idoso com demência deve envolver, sempre que possível, o próprio paciente em uma conversa adaptada à sua capacidade de compreensão, a família em uma discussão honesta sobre benefícios e limitações da tecnologia e a equipe de saúde em uma avaliação do risco real de deambulação e das alternativas disponíveis. Desse modo, documentar essa decisão no prontuário, incluindo os motivos que a justificaram e a forma como foi comunicada ao paciente, é uma prática de cuidado ético que protege tanto o idoso quanto os cuidadores.

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, a tecnologia de rastreamento não substitui outras intervenções de segurança domiciliar, como fechaduras adaptadas, alarmes de porta e cercas de jardim, que devem ser consideradas em conjunto com o GPS como parte de uma estratégia integrada de prevenção da deambulação perigosa.

O futuro do rastreamento e as fronteiras que a medicina precisa estabelecer

O desenvolvimento acelerado de tecnologias de monitoramento, que já inclui dispositivos capazes de rastrear não apenas a localização, mas também padrões de movimento, frequência cardíaca e qualidade do sono do idoso com demência, amplia tanto as possibilidades clínicas quanto os riscos de invasão de privacidade e de vigilância excessiva. Nesse contexto, estabelecer limites éticos claros sobre o que pode e o que não deve ser monitorado, com base em princípios de autonomia, beneficência e proporcionalidade, é uma tarefa que a medicina geriátrica precisa assumir antes que a tecnologia avance mais rapidamente do que a reflexão ética consegue acompanhar.

Segundo Yuri Silva Portela, cuidar com tecnologia é também cuidar com responsabilidade. O dispositivo que localiza o idoso perdido é uma ferramenta de amor quando usado com critério e de controle quando usado sem limites. A diferença entre esses dois usos está na qualidade da conversa que precede sua implementação.

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