Tiago Oliva Schietti comenta sobre o turismo cemiterial: Quando o luto se transforma em cultura e patrimônio visitável?

Diego Velázquez
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Tiago Oliva Schietti

Sob a ótica de Tiago Oliva Schietti, o turismo cemiterial representa muito mais do que uma curiosidade mórbida: trata-se de uma forma legítima e crescente de preservar memórias, valorizar patrimônios históricos e reconectar as pessoas com a história coletiva de suas cidades. Essa modalidade turística, que transforma espaços de luto em destinos culturais, ganha cada vez mais espaço no roteiro de viajantes atentos à riqueza simbólica e arquitetônica que os cemitérios oferecem. Ao longo deste conteúdo, você vai descobrir como essa tendência global se manifesta, por que ela merece atenção e de que forma o Brasil se insere nesse movimento. 

O turismo cemiterial é uma prática recente ou tem raízes históricas?

Visitar túmulos de personalidades ilustres é um hábito que remonta ao século XIX, quando cemitérios europeus como o Père-Lachaise, em Paris, e o Highgate, em Londres, passaram a atrair multidões não apenas para o luto, mas para a contemplação artística e histórica. Esses espaços foram projetados com intenção estética, repletos de esculturas, mausoléus e alamedas arborizadas que os tornavam verdadeiros museus a céu aberto. A prática, portanto, não é nova: ela simplesmente encontrou, na contemporaneidade, uma nomenclatura e uma sistematização mais definidas.

O que mudou nas últimas décadas foi a percepção social sobre esses espaços. Se antes prevalecia o tabu em torno da morte, hoje cresce uma geração de viajantes interessada em turismo de experiência, patrimônio imaterial e narrativas urbanas profundas. Nesse cenário, como aponta Tiago Oliva Schietti, visitar um cemitério histórico passa a ser um ato de curiosidade intelectual e respeito cultural, muito mais do que uma escolha excêntrica ou controversa.

Por que os cemitérios se tornaram destinos de patrimônio cultural?

Os cemitérios históricos reúnem em um único espaço elementos raramente encontrados com tal densidade em outros ambientes: arquitetura funerária de diferentes épocas, registros genealógicos, arte escultórica, vegetação centenária e camadas de memória coletiva sobrepostas. Esse conjunto transforma esses locais em arquivos vivos da sociedade, capazes de revelar muito sobre os valores, as crenças e as desigualdades de cada período histórico. Para além da morte, o que esses espaços guardam é a vida em sua forma mais documentada.

Reconhecer os cemitérios como patrimônio visitável exige uma mudança de olhar que vai além do turismo convencional. Trata-se de entender que a cultura de um povo também se revela na forma como ele honra seus mortos, nos materiais que escolhe para perpetuar memórias e nas histórias silenciosas gravadas em cada lápide. Nesse sentido, conforme enfatiza Tiago Oliva Schietti, o cemitério deixa de ser um lugar de ausência e passa a ser um espaço de presença histórica intensa e insubstituível.

Quais são os principais destinos de turismo cemiterial no mundo e no Brasil?

Ao redor do globo, alguns cemitérios já consolidaram sua posição como destinos turísticos de primeira grandeza. Entre os mais visitados estão o Père-Lachaise, em Paris, o Cemitério de Recoleta, em Buenos Aires, e o Hollywood Forever, em Los Angeles. Cada um desses espaços combina história, arte e narrativa de forma singular, atraindo milhares de visitantes anuais interessados em cultura, arquitetura e memória. A experiência nesses locais frequentemente supera a de museus tradicionais, justamente pela autenticidade e pela escala das histórias preservadas.

Tiago Oliva Schietti
Tiago Oliva Schietti

No Brasil, esse movimento ainda dá os primeiros passos, mas apresenta exemplos notáveis. O Cemitério da Consolação, em São Paulo, e o São João Batista, no Rio de Janeiro, já recebem visitas guiadas regulares e se afirmam como espaços de patrimônio histórico e artístico. Para Tiago Oliva Schietti, o país possui um potencial enorme nesse segmento, dado o ecletismo arquitetônico de seus cemitérios mais antigos e a riqueza das histórias que eles abrigam ao longo de séculos.

Como o Brasil pode avançar nesse segmento turístico?

O Brasil reúne condições favoráveis para se tornar uma referência no turismo cemiterial latino-americano. O país conta com cemitérios de grande valor arquitetônico e histórico em diversas regiões, muitos deles ainda pouco explorados turisticamente e carentes de projetos de interpretação patrimonial. Investir em sinalização, formação de guias e parcerias entre poder público e iniciativa privada são passos fundamentais para transformar esse potencial em realidade concreta. A demanda existe e tende a crescer à medida que o turismo cultural ganha protagonismo entre os viajantes brasileiros.

Nesse contexto, vale destacar que iniciativas isoladas já demonstram o caminho a seguir. Conforme ressalta Tiago Oliva Schietti, o avanço desse segmento depende, sobretudo, de uma mudança de postura institucional: enxergar o cemitério não como um espaço de gestão meramente administrativa, mas como um bem cultural que merece planejamento, investimento e narrativa. Quando isso acontece, o resultado é um turismo mais profundo, mais humano e verdadeiramente transformador.

O patrimônio funerário como convite à consciência histórica e cultural

O turismo cemiterial revela, em sua essência, que os espaços de luto têm muito a ensinar aos vivos. Ao longo deste artigo, foi possível compreender como essa prática atravessa séculos de história, como se manifesta em diferentes países e de que forma ela contribui para a valorização do patrimônio cultural local. Mais do que uma tendência, trata-se de um olhar renovado sobre lugares que guardam, em cada pedra e epitáfio, fragmentos essenciais da memória humana.

O turismo cemiterial não pede que se abandone o respeito ou a solenidade: ele propõe que se some a esses sentimentos a curiosidade, o aprendizado e o reconhecimento. Visitar um cemitério histórico é, portanto, uma forma de honrar não apenas os que partiram, mas a própria capacidade humana de criar beleza, cultura e significado diante da perda. Sob essa perspectiva, como reforça Tiago Oliva Schietti, cada visita a esses espaços é também uma declaração de amor à história e à memória coletiva de um povo.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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