Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou dificuldades na formação e no aproveitamento de profissionais das áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, conhecidas pela sigla STEM. O levantamento avaliou a oferta e a demanda por esses trabalhadores no Brasil e apontou falta de integração entre as instituições de ensino, as políticas públicas e as necessidades do setor produtivo.
O trabalho analisou o período de 2014 a 2023. A decisão sobre a auditoria foi tomada em 2 de setembro de 2026, mesma data em que o tribunal divulgou as conclusões. O documento principal é o Acórdão 2.416/2026 – Plenário, referente ao processo TC 024.405/2024-8.
Desafios começam antes do ensino superior
De acordo com o TCU, os obstáculos aparecem em diferentes etapas da trajetória educacional. Entre os problemas identificados estão a baixa qualidade da formação básica, a escassez de professores de ciências exatas, as desigualdades sociais e regionais e as taxas elevadas de evasão em cursos técnicos e superiores.
Esse conjunto de fatores dificulta tanto o ingresso quanto a conclusão de formações relacionadas a STEM. Na prática, estudantes de diferentes regiões e condições socioeconômicas não enfrentam as mesmas oportunidades para acessar e permanecer em cursos ligados à computação, à engenharia, à matemática e às ciências naturais.
A auditoria também relaciona a formação desses profissionais à necessidade de fortalecer a capacidade brasileira de inovação. Para o tribunal, quando estudantes não conseguem concluir seus cursos ou quando a formação não corresponde às demandas existentes, o país aproveita menos o conhecimento e as habilidades de sua população.
Formados nem sempre atuam na área de especialização
Outro ponto destacado no levantamento é que parte dos profissionais formados em áreas STEM trabalha fora do campo de formação ou em ocupações abaixo do nível de qualificação obtido. O cenário representa um uso limitado do capital humano desenvolvido por cursos técnicos e superiores.
Segundo o TCU, esse descompasso pode afetar a produtividade e restringir a capacidade de inovação do Brasil. A questão, portanto, não se resume à quantidade de vagas oferecidas em cursos ou à abertura de postos de trabalho: envolve também a conexão entre o que é ensinado, as competências desenvolvidas e as oportunidades profissionais disponíveis.
O diagnóstico amplia o debate sobre a formação STEM para além das necessidades imediatas das empresas. A permanência estudantil, a qualidade da educação básica, as desigualdades de acesso e a articulação entre universidades, institutos federais, governo e setor produtivo também fazem parte do desafio identificado na auditoria.
TCU recomenda coordenação entre áreas do governo
O tribunal apontou ainda uma fragmentação das políticas públicas relacionadas à educação, ao trabalho, à ciência, à tecnologia e à inovação. Sem uma atuação coordenada, torna-se mais difícil acompanhar a trajetória dos estudantes, avaliar a empregabilidade dos concluintes e planejar a formação de profissionais para setores estratégicos.
Como encaminhamento, o TCU recomendou a criação de uma instância de coordenação interministerial e a elaboração de um plano estratégico voltado à formação de profissionais STEM. A proposta busca organizar ações de diferentes áreas do governo e estabelecer uma visão integrada para o desenvolvimento dessas competências no país.
Outra recomendação é a integração das bases de dados dos órgãos públicos. A medida permitiria comparar informações sobre cursos, concluintes, empregabilidade e necessidades do mercado de trabalho. Com dados articulados, gestores poderiam identificar com mais precisão onde estão os principais gargalos e orientar políticas de acesso, permanência e formação profissional.
Por que as áreas STEM são estratégicas
As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática estão associadas à produção de conhecimento, ao desenvolvimento tecnológico e à capacidade de inovação. Por isso, a formação de profissionais nesses campos é relevante para universidades, institutos federais, empresas e órgãos públicos.
O diagnóstico do TCU indica, porém, que ampliar a oferta educacional não é suficiente. Também é necessário melhorar a preparação dos estudantes desde a educação básica, reduzir barreiras de acesso e permanência e aproximar a formação acadêmica das transformações tecnológicas e industriais.
As conclusões da auditoria colocam a integração entre educação e trabalho como uma responsabilidade compartilhada. Para enfrentar o problema, o relatório defende maior articulação entre políticas públicas e informações capazes de mostrar se os cursos estão formando profissionais para as oportunidades existentes e se esses profissionais conseguem atuar de acordo com sua qualificação.
