Pequenas histórias, algumas percepções e a saga de uma mãe

Marcel Valcourt
5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho

Na narrativa de Alfredo Moreira Filho, fundador e gestor do Grupo Valore+, o livro “Pequenas Histórias e Algumas Percepções” tem um eixo declarado logo na introdução: a saga de sua mãe, Dona Rosa, para garantir escola aos doze filhos que sobreviveram de quinze gestações. Ela viveu numa fazenda do sul da Bahia, sem escola, sem médico e sem estrada, e transformou a educação dos filhos em uma missão de vida.

Histórias como essa são comuns no Brasil rural, mas raramente chegam ao papel com tantos detalhes sobre as escolhas difíceis que exigiram. Ao reconstituí-las, o livro mostra como uma decisão familiar, tomada sem recursos e contra a acomodação, pode redefinir o destino de uma geração inteira. Se você tem na família uma mãe ou uma avó que fez esse tipo de aposta, as próximas linhas vão soar familiares.

Uma mãe como eixo do livro

Livros de memórias costumam girar em torno do próprio autor. Em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, porém, a figura central divide o protagonismo com a mãe. Dona Rosa estudou apenas três anos, porque o pai dizia que mulher não precisava de escola, mas aprendeu sozinha a gostar de ler e a fazer contas.

Na fazenda, ela era ao mesmo tempo professora, enfermeira e conselheira da família e dos vizinhos, segundo descreve Alfredo Moreira. Vacinava as crianças do lugar, dava vermífugos todo ano e alfabetizava filhos e agregados na única mesa da casa. A obstinação com o estudo, porém, ia além da alfabetização: ela sabia que aquela terra daria comida aos filhos, mas não daria futuro.

O custo de mandar os filhos embora

Sem escola por perto, a solução encontrada foi enviar os filhos, um a um, para morar com parentes nas cidades. A filha mais velha partiu aos oito anos para Itabuna; os seguintes foram para Salvador e Vitória da Conquista, acolhidos por avós e tios. Cada despedida era uma renúncia: os pais abriam mão de ver os filhos crescer em troca de uma chance de estudo.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

O modelo tinha prazo de validade. Com o tempo, os parentes já não queriam abrigar mais crianças, e houve casos de promessas descumpridas, como o da irmã enviada para estudar numa cidade vizinha e transformada em babá sem remuneração. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, foi esse esgotamento que mostrou à mãe que a solução definitiva não estava na casa dos outros, mas em mudar a própria família de lugar.

O ultimato que mudou a família

A virada aconteceu numa conversa direta. Dona Rosa avisou ao marido que, em janeiro, se mudaria para a cidade de Ituberá com os filhos para que pudessem estudar, com ou sem ele. Lembrou que os dois haviam colocado os doze no mundo e que eram os únicos responsáveis pelo futuro deles. O marido concordou e prometeu arranjar uma casa.

A primeira casa alugada, conta Alfredo Moreira, era uma construção inacabada num bairro sem calçamento, fechada às pressas num negócio de mesa de bar. Dona Rosa aceitou ficar por um tempo e exigiu algo melhor, que veio pouco depois. Na saída da fazenda, chorou ao se despedir da terra que amava, ciente de que trocava o lugar onde os filhos nasceram pela chance de eles terem outro destino.

O que a saga deixou

A mudança só foi viável porque a filha, que havia se formado em Letras, voltou para casa e passou a lecionar, e depois a dirigir o colégio local, assumindo boa parte das despesas da família. Os irmãos menores puderam estudar perto dos pais, e a rede de apoio entre irmãos se tornou parte do projeto da mãe.

A filha mais velha foi a primeira da família a concluir um curso superior, em odontologia, e outras a seguiram em engenharia, letras, agronomia e administração. Para Alfredo Moreira Filho, a maior produção daquela fazenda não saiu da terra, mas da cabeça dos pais. O que o livro demonstra, ao final, é que a saga de Dona Rosa não foi apenas uma história de família, e sim o retrato de muitas mães brasileiras que fizeram da educação a única herança possível.

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