Entre os principais desafios do turismo contemporâneo está equilibrar a curiosidade do visitante com o bem-estar real de quem vive no destino. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha com atenção o crescimento do turismo de base comunitária, modelo que devolve às comunidades locais o controle sobre como recebem e apresentam seu próprio território. Da Amazônia às vilas do litoral fluminense, esse formato já orienta projetos que unem geração de renda, preservação ambiental e valorização cultural em diferentes regiões do país. Vamos entender o que caracteriza esse modelo de turismo, onde ele já funciona no Brasil e por que virou prioridade de política pública em 2026.
O que diferencia o turismo de base comunitária do turismo convencional?
No turismo convencional, roteiros costumam ser definidos por operadoras externas, que selecionam atrações, definem preços e retêm boa parte do valor gerado pela visita, muitas vezes sem envolver diretamente quem vive na região visitada. O turismo de base comunitária inverte essa lógica: moradores locais planejam, executam e lucram diretamente com a experiência oferecida, decidindo quais aspectos da própria cultura, história e cotidiano desejam compartilhar com quem chega de fora.
Como relata Daugliesi Giacomasi Souza, essa diferença de protagonismo muda completamente a natureza da experiência entregue ao viajante, que passa a conhecer histórias, tradições, culinária e artesanato contados por quem realmente vive aquela realidade, e não apenas observados à distância como cenário turístico. Comunidades caiçaras, quilombolas, ribeirinhas e indígenas figuram entre os grupos que mais têm desenvolvido esse tipo de proposta em diferentes regiões do país nos últimos anos.
Da Amazônia à Costa Verde fluminense: exemplos que já funcionam
Na Amazônia, comunidades ribeirinhas e indígenas já oferecem experiências imersivas ligadas ao cotidiano amazônico, unindo geração de renda à preservação de áreas florestais que dependem diretamente da manutenção do ecossistema local. Alguns lodges na região já combinam hospedagem com apoio direto à pesquisa científica, conservação ambiental e projetos educacionais, tornando cada estadia parte de uma cadeia mais ampla de proteção da floresta.

Conforme sustenta Daugliesi Giacomasi Souza, iniciativas como o Projeto Roteiro Caiçara, na Costa Verde do Rio de Janeiro, mostram como esse modelo pode se estruturar em rede, reunindo doze comunidades caiçaras e quilombolas entre Paraty e Ilha Grande em um esforço conjunto de fortalecimento do turismo local. Em Trancoso, na Bahia, hospedagens que valorizam artesanato local e apoiam projetos sociais da comunidade ilustram como até empreendimentos de maior padrão conseguem incorporar princípios de base comunitária sem abrir mão de conforto e sofisticação para o hóspede.
Como a comunidade decide o que mostrar e o que preservar?
Diferente de um pacote turístico genérico, o turismo de base comunitária nasce de decisões coletivas sobre o que realmente vale a pena compartilhar com visitantes, considerando tanto o interesse turístico quanto os limites que a própria comunidade define para preservar seu modo de vida. Uma trilha até uma cachoeira deixa de ser apenas um passeio isolado e passa a incluir a história do lugar, as tradições locais, a culinária típica e o artesanato produzido pelos próprios moradores.
Na compreensão de Daugliesi Giacomasi Souza, esse cuidado na curadoria da experiência evita que o turismo se torne extrativista, replicando o modelo que historicamente retirou valor econômico de comunidades tradicionais sem retribuir de forma justa aquilo que ofereciam ao visitante. Formações e reuniões prévias entre organizadores e moradores, como as realizadas ao longo da primeira fase do Projeto Roteiro Caiçara, ajudam a construir esse tipo de roteiro de forma colaborativa, e não imposta de fora para dentro.
Por que esse modelo virou prioridade de política pública?
O turismo de base comunitária ocupou lugar de destaque no Salão do Turismo realizado em Fortaleza, reunindo experiências que aliam preservação ambiental e geração de renda em comunidades de diferentes regiões do país. A discussão também ganhou visibilidade em torno do Dia Nacional do Turismo, quando o modelo foi apresentado como alternativa concreta de desenvolvimento sustentável para áreas de floresta e comunidades tradicionais, especialmente na região amazônica.
Segundo menciona Daugliesi Giacomasi Souza, esse reconhecimento institucional cada vez maior sinaliza que o turismo de base comunitária deixou de ser iniciativa isolada de pequenos grupos organizados e passou a integrar debates estratégicos sobre o futuro do turismo brasileiro como um todo. Ministérios, operadoras e pesquisadores já discutem esse modelo como parte de uma resposta mais ampla à busca crescente por viagens que gerem impacto positivo real, e não apenas boas fotografias para compartilhar depois da volta para casa. Viajar, nesse formato, deixa de ser apenas consumir um destino e passa a significar, ainda que por poucos dias, fazer parte da história de quem vive nele.
